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Meu medo de altura, a araucária e os anus-branco!

Foto do escritor: Carol Bernardo
Carol Bernardo
24 de jul.
5 min de leitura

História de uma pesquisadora de campo #1


Tenho algumas histórias na cabeça para contar que nem sei por onde começar.


Acho que começarei pelas que vem primeiro em minha mente, que não necessariamente são as mais engraçadas, de maior perrengue ou as mais “perigosas”.

Uma das primeiras histórias que me veio à mente, é também uma das mais antigas da minha vida de “projeto de bióloga”. Chamo de projeto, porque ainda era novinha da graduação, estava apenas no segundo semestre do curso de ciências biológicas, mas já estava fazendo estágio voluntário no laboratório de comportamento animal, no departamento de zoologia.


Antes de começar a contar a história, é importante falar uma coisa a meu respeito: eu tinha muito medo de altura. Falo “tinha”, porque trabalho isso durante minha vida inteira, me expondo a situações em que eu desafio este medo. Mas, na época, eu tinha muito medo mesmo! Hoje só tenho medo.


Em que consistia o estágio?


Como eu disse, o estágio era no laboratório de comportamento animal e eu acompanhava projetos que eram executados por alunas/os de iniciação científica ou por alunas/os de mestrado ou de doutorado.

Um desses projetos era acompanhar ninhos de anu-branco (Guira guira), para saber se os ovos estavam sendo jogados (ou não) para fora do ninho e se o ninho tinha sido abandonado.

Anu-branco (Gui guira) - Foto de Robert Schwarz na Unsplash
Anu-branco (Gui guira) - Foto de Robert Schwarz na Unsplash

Por quê isso acontece nessa espécie?


Porque os anus-branco, da família Cuculidae, que tem o sistema reprodutivo poligâmico (poliândrico e poligínico), podem ter ninhos grupais. Assim, quando a fêmea vai depositar seu ovo no ninho, se já tiver ovo de outra fêmea, ela pode “jogar fora” o ovo previamente depositado pela primeira fêmea que “ocupou”, e depositar o dela. Além disso, tem também casos de infanticídio, em que aves adultas também jogam do ninho os filhotes que são de outros pais, menos semelhantes geneticamente ao filhote no ninho. Não são aves que têm muito cuidado parental ou cuidado com o ninho, são aves, portanto, que têm registros de abandono de ninhos.


Bom, onde essa espécie fazia os ninhos visitados durante o projeto? (E ainda faz, provavelmente)


Em araucárias altas, de 10 a 20m de altura.

Araucária - Foto de Rafael Sales na Unsplash
Araucária - Foto de Rafael Sales na Unsplash

Então, como era a logística no dia de campo?


Saíamos da Universidade de Brasília, passávamos na casa da orientadora para pegar o resto dos equipamentos, como a escada, binóculos e redes - caso precisasse consertar alguma rede que era colocada embaixo dos ninhos de cada árvore, já previamente mapeada - e percorremos o Park Way (um bairro em Brasília), onde as árvores já tinham sido mapeadas.


Quando digo “mapeadas” quero dizer no papel mesmo, tá! Porque naquela época não tinha celular com GPS. Um pouco depois o laboratório conseguiu um GPS, daqueles antigos. Mas, até lá, era mapa em papel mesmo, desenhado pelos bolsistas de iniciação científica, mestrandos e doutorandos do projeto.


Chegando nas árvores, observamos de longe primeiro, para ver se as aves adultas estavam próximas e se sim, se estavam anilhadas.


O que significa uma ave estar anilhada?


Significa se a ave estava identificada. Uma ave que é objeto de estudo, antes de qualquer observação a ser realizada, precisamos identificar as aves. Para isso, coletamos as aves, por meio de redes de neblina, bem cedinho - porque temos que colocar as redes antes de elas acordarem, no local onde elas dormem; então há todo um processo de observação e acompanhamento do bando antes para fazermos isso e acordar muito cedo todos os dias!

Após a coleta, retiramos as aves da rede, pegamos suas medidas corporais, como peso, tamanho da asa, do corpo, se tem ectoparasita ou não e identificamos essa ave com uma sequência de anilhas, que são aneis, colocados nas patas das aves. Tem dois tipos de anilhas: uma de metal, que tem a identificação do CEMAVE (Centro Nacional de Conservação de Aves), que tem um código que “consiste de uma letra, que representa o diâmetro da anilha e números que não se repetem, conferindo uma identidade única a cada ave anilhada”; e tem anilhas coloridas, de plástico, que são colocadas para facilitar a identificação do animal de longe.

Anilhas metálicas - CEMAVE
Anilhas metálicas - CEMAVE

Se identificamos a presença de adultos próximo ao ninho, ficávamos observando o comportamento da ave ou das aves próximas. Se não tinha adulto próximo, nos dirigíamos em direção à árvore, para verificar no solo ao redor se tinha algum indício de ovo caído ou filhote morto no chão, para depois colocarmos a escada para subir na árvore.


Nessa hora você, cara leitora, caro leitor, deve estar pensando que tínhamos todo o equipamento de escalada e segurança para subirmos na árvore e que todos e todas que estavam lá tinham seguro de trabalho, correto?


Errado! Não tínhamos nada disso. Só coragem e vontade mesmo. E seja o que Darwin quisesse!

Simplesmente apoiamos a escada na araucária, colocávamos o capacete, uma pessoa ficava segurando a escada, enquanto a outra subia na escada. Esse era nosso equipamento de segurança: um capacete e uma pessoa segurando a escada.


A minha primeira vez subindo eu me tremia toda e suava frio até os cabelos do c*! A primeira árvore que eu subi tinha 10m e eu tinha que liberar as mãos da escada para conseguir ver a rede, passar meu olhar por cima da rede para conseguir ver o ninho… Simples! Só que não!


Minhas pernas tremiam TANTO, mas TANTO! Eu só pensava em terminar logo aquele martírio e descer o mais rápido possível. E a pessoa que segurava a escada era a pessoa responsável pelo projeto e ficava me perguntando coisas sobre o ninho, sobre a rede… E eu não conseguia escutar direito, de tanta tensão, porque minha atenção estava dividida em me manter viva, na escada, sem tremer tanto para não cair e não suar tanto, para não escorregar minha mão ao longo do processo.


Nesse ponto, você deve estar se perguntando porque eu fiz isso, ao invés de deixar o bolsista, mestrando ou doutorando fazer? Pois então, se eu não fizesse eu não aprenderia. Então, eu precisava subir, para olhar e ver como é um ninho de verdade, como são os ovos, como era a rede, se tinha ovos ou não na rede. E, além de tudo, para encarar o meu medo de altura. E, para mim, tudo valeu a pena! ;)


No final das contas, deu tudo certo e estou aqui, viva para contar a história. Depois da primeira vez, as outras vezes se tornaram mais fáceis, exceto quando o tronco era muito fino e/ou estava ventando muito. Aí eu optava por não subir e preferia ser a pessoa segurando a escada. O que também dava uma tensão, porque se você bobeasse a a escada saísse do local seguro, FUD3U! Você foi a responsável pela queda do pesquisador.


Então, os riscos eram altos, em ambas as situações.


No final das contas, era divertido. Porque era muito legal entender o comportamento dos animais e para isso, precisávamos coletar dados para fomentar toda essa discussão científica. Mas, fazer pesquisas com comportamento animal não é para todas/os, porque nem todas/os terão paciência para ficar observando por horas até algo acontecer ou o bicho em questão aparecer. É um estudo de paciência e amor.


Esse estudo foi um estudo de décadas da minha orientadora de mestrado, a professora Regina Macedo e rendeu vários artigos sobre o sistema reprodutivo dos Guira-guira. E eu fico muito feliz de ter contribuído, mesmo que um pouquinho, com essas publicações.

 
 
 

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