Por quê 2026 nos obriga a rever a economia global?
- Carol Bernardo
- 29 de abr.
- 2 min de leitura
Recentemente, li - de “En passant” o último relatório do FMI , que trouxe dados que não podemos ignorar: a crise energética no Oriente Médio, com o fechamento do Estreito de Ormuz, que escoa 20% da demanda global de petróleo, deixou de ser um pequeno risco [ou “risco de cauda”, de acordo com expressão do próprio mercado, para os mais engajados] para se tornar o vetor central da instabilidade macroeconômica atual.

Mas a pergunta que precisamos fazer como profissionais, observadores e cidadãos consumidores é: por quê estamos tão expostos?

Alguns pontos a considerar para dar essa resposta:
A armadilha da Inércia Institucional: Estudos de 2015 e 2021 na Nature já alertavam que o “carbon lock-in“ (a dependência estrutural de infraestrutura fóssil) cria um engessamento tecnológico. Nossa economia não é apenas “usuária” de petróleo; ela é construída sobre ele. Quando a geopolítica abala essa base, todo o resto, transporte, logística, produção, também balança.

O efeito cascata na inflação: O último relatório do FMI estima uma subida de 21,7% no preço do barril de petróleo e cerca de 19% em commodities energéticas. Esse choque negativo de oferta atinge o custo de produção de bens intensivos em energia [como, produtos agrícolas, manufaturados etc], o que pressiona a inflação a subir, porque os custos das externalidades não são internalizados na produção, mas repassados para o consumidor, por isso o poder de compra se reduz. É o cenário clássico de desaceleração que o FMI agora projeta (crescimento de 3,1% ou menos), aproximando o mundo de uma estagflação.

Todo esse impacto não é conjuntural, é estrutural. Por isso, o que vemos hoje não é um evento isolado de guerra. É o resultado de décadas de adiamento de uma transição energética que a ciência já falava desde 1950. A concentração de reservas em zonas de conflito e o monopólio natural desse recurso escasso garantem que, enquanto a matriz não mudar, continuaremos a ser reféns de choques sucessivos.

Portanto, estamos diante de uma evidência empírica [quase] incontestável: a economia que ignora o risco climático e a diversificação energética é, por definição, uma economia frágil [isso porque nem mencionei o impacto socioambiental].
E tudo isso, eu falei no Episódio #41 - Parte 1 do Ambienta Podcast, onde você pode assistir ou ouvir no Spotify ou no YouTube.
Mas, quero saber de você, cara ou caro leitor/a, qual é a sua leitura sobre esse cenário?
Você acha que estamos prontos para essa reconfiguração ou vamos continuar “pagando para ver”?
REFERÊNCIAS [desse post, no link do episódio tem mais!]
McGLADE, Christophe; EKINS, Paul. The geographical distribution of fossil fuels unused when limiting global warming to 2°C. Nature, London, v. 517, n. 7533, p. 187–190, jan. 2015. DOI: 10.1038/nature14016.
WELSBY, Dan; PRICE, James; PYE, Steve; EKINS, Paul. Unextractable fossil fuels in a 1.5°C world. Nature, London, v. 597, n. 7875, p. 230–234, set. 2021. DOI: 10.1038/s41586-021-03821-8.
FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook: war, inflation, and the global economy. Washington, D.C.: IMF, abr. 2026. Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/WEO. Acesso em: 29 abr. 2026.



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